Série Alvorada

SÉRIE ALVORADA

Regente principal: Tobias Volkmann
Solista: Oscar Bohorquez

Um certo olhar ao passado é o principal traço comum que liga as duas suítes orquestrais apresentadas neste programa, embora outras intersecções possam ser traçadas. Tanto Maurice Ravel quanto Igor Stravinsky buscam referência na música do século XVIII para a composição de suas obras, ambas em formação de orquestra de câmara. Um elemento curioso é o fato de as duas obras terem sido compostas há 100 anos. Em 1919 Ravel orquestrou quatro movimentos de sua suíte original para piano de 1917. No mesmo ano Stravinsky recebeu a proposta de Sergei Diaghilev para produzir a música de um novo espetáculo dos Balés Russos dedicado às histórias de Pulcinella (tradicional personagem da Commedia dell’arte italiana) a partir de um conjunto de obras musicais na época atribuídas a Pergolesi. Do ponto de vista da orquestração, tanto em Pulcinella quanto particularmente na versão orquestral de Le tombeau de Couperin o oboé assume protagonismo. A suíte orquestral de Ravel e o balé do qual são extraídos os movimentos da suíte de Stravinsky também estrearam na mesma cidade e no mesmo ano: na Paris de 1920, com apenas 45 dias separando suas estreias.

Em termos estéticos, a suíte francesa para piano Le tombeau de Couperin nasceu não como uma homenagem a François Couperin (1668-1733) individualmente, mas sim como tributo à grande era de ouro da música francesa, da qual o “Organista do Rei” na corte de Luís XIV era o principal representante. Em termos pessoais, este impulso inicial como homenagem foi posteriormente influenciado pelas trágicas memórias da Primeira Guerra Mundial. A gênese original da composição ocorreu no início da guerra, quando Ravel se alistou e atuou como enfermeiro do exército francês. No período inicial Ravel ainda tinha a música constantemente em seus pensamentos, tanto que em outubro de 1914 escreveu a seu pupilo Roland-Manuel animadamente sobre as duas obras que ocupavam seu ímpeto criativo. Uma delas era uma suíte francesa. “Não é o que você está pensando: a Marseillaise não estará incluída, mas terá uma Forlane e uma Giga; entretanto, nenhum Tango.”

Com o terrível avanço da guerra, sua nova e estressante função de motorista de caminhão e, por fim, a morte de sua mãe em 1917, Ravel sofreu um declínio físico e psicológico, tendo logo sido dispensado do serviço militar. Sua música experimentou uma mudança evidente e obras iniciadas anteriormente (como o poema sinfônico Vien, que depois viria a se transformar na um tanto amargurada La valse) tiveram forte influência das memórias da guerra. Le tombeau de Couperin teve cada um de seus seis movimentos dedicado a um amigo morto no front. Ainda assim, manteve um caráter leve do gesto composicional inicial. Sobre isto Ravel afirmava que “os mortos estão suficientemente melancólicos em seu silêncio eterno”.

Hoje se sabe que música do século XVIII para cenas de Pulcinella buscada por Diaghilev e Léonide Massine em arquivos italianos, na época atribuída a Giovanni Battista Pergolesi, era na verdade uma compilação de obras de vários compositores além do próprio Pergolesi, entre eles Domenico Gallo, Carlo Ignazio Monza e Alessandro Parisotti. Segundo Stravinsky, Diaghilev não esperava nada além uma orquestração estilizada. Recebeu uma partitura com poucas alterações estruturais ou harmônicas nos originais, porém sempre muito significativas, típicas da orquestração idiossincrática de Stravinsky (como o proposital desequilíbrio entre trombone e contrabaixo no movimento Vivo). O espetáculo teria coreografia de Massine com cenografia e figurinos de Pablo Picasso, um evidente e interessante olhar do século XX sobre a estética do século XVIII.

Entre as duas obras, o concerto n o 2 para violino e orquestra de Camargo Guarnieri, obra modernista em aspectos harmônicos e heterodoxa no tratamento da forma, uma das principais obras brasileiras do gênero. Além de uma grande exigência técnica e musical na parte solista, o concerto traz a cadência posicionada em um momento pouco usual, logo no início da obra, exercendo assim um papel inverso ao que tradicionalmente se esperaria deste recurso composicional. Quando geralmente a cadência ao final do concerto traz de volta à memória temas ouvidos anteriormente de forma variada, esta cadência no início do concerto apresenta temas dos três movimentos, como uma antecipação estética do que virá a ser o percurso da escuta.

TOBIAS VOLKMANN   Regente principal

Vencedor dos principais prêmios concedidos no Concurso Internacional de Regência Jorma Panula 2012 na Finlândia e no Festival Musical Olympus de São Petersburgo em 2013,  Tobias Volkmann vem atraindo atenção para interpretações consistentes tanto no repertório sinfônico quanto no teatro de ópera e balé. Com versatilidade e sofisticação Volkmann mostra-se à vontade em uma variedade de estilos, que se estende da interpretação historicamente informada da música do século XVIII às mais desafiadoras obras da música contemporânea, incluindo naturalmente o grande repertório romântico e a música brasileira em suas diversas vertentes. Desde 2016  na posição de principal regente convidado da Orquestra Sinfônica Nacional da Universidade Federal Fluminense, Tobias Volkmann foi maestro titular da Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal do Rio de Janeiro de 2016 a 2018.

Em 2015 estreou na célebre sala Gewandhaus de Leipzig como convidado da temporada oficial do Coro e Orquestra Sinfônica da Rádio MDR. Em poucos anos foi convidado a dirigir em concerto um grande número de orquestras europeias e sul-americanas, destacando-se entre elas a Orquestra Sinfônica Estatal de São Petersburgo, Orquestra Sinfônica Estatal do Museu Hermitage, Sinfônica de Brandemburgo, Orquestra Sinfônica do Porto Casa da Música, Orquestra Sinfônica do Chile, Orquestra Sinfônica do SODRE, Orquestra Sinfônica Brasileira, Filarmônica de Minas Gerais, Petrobras Sinfônica, Orquestra Sinfônica da UNCuyo – Mendoza, Orquestra Clássica da Universidade de Santiago, Orquestra Sinfônica do Paraná, Orquestra Sinfônica de Porto Alegre e Orquestra Sinfônica da Universidade de São Paulo. Compromissos futuros incluem a estreia com a Filarmônica de Pilsen, na República Tcheca.

No Theatro Municipal do Rio de Janeiro dedicou-se especialmente à ópera, às grandes obras coral-sinfônicas e ao balé, recebendo reconhecimento de público e crítica. Destaques recentes foram a ópera Un ballo in maschera e a Segunda Sinfonia de Mahler, escolhida pela imprensa carioca um dos melhores concertos de 2018.

Com a Orquestra Sinfônica Nacional trabalha principalmente a música dos séculos XX e XXI, em um enfoque particular na música brasileira, retomando assim a vocação inicial da orquestra para o registro fonográfico e a difusão do repertório sinfônico nacional. Sob sua direção musical a OSN gravou três CDs de música brasileira contemporânea. Sua discografia completa-se com Whisper, disco de música brasileira gravado ao vivo na Alemanha com a harpista Cristina Braga e a Sinfônica de Brandemburgo.

Dedica à música contemporânea uma atenção especial, tendo realizado mais de vinte estreias nos EUA, na Alemanha, na Rússia, na Argentina e no Brasil.

Tobias Volkmann realizou sua formação com Ronald Zollman na Universidade Carnegie Mellon de Pittsburgh, complementando-a com grandes nomes da regência em masterclasses internacionais ministradas por Kurt Masur, Jorma Panula, Isaac Karabtchevsky e Fabio Mechetti.

OSCAR BOHORQUEZ   Solista

O violinista alemão Oscar Bohórquez é considerado por Christoph Eschenbach, regente da Konzerthausorchester Berlin, como um talento excepcional “de uma grande profundidade musical”.

O dia 20 de setembro de 2009 marcou a estreia do violinista como solista na Orquestra Filarmônica de Londres.

Oscar Bohórquez fez seus estudos no prestigiado Curtis Institute of Music, da Filadélfia, com o professor Aaron Rosand, de 1998 a 2002, e na Universidade de Música de Viena, com o professor Günter Pichler do Quarteto Alban Berg, de 2002 a 2008.

Em turnês esteve nas mais renomadas salas alemãs, como a Filarmônica de Berlim, a Elbphilharmonie em Hambourg, a Meistersingerhalle em Nuremberg, a Alte Oper em Frankfurt, a Liederhalle em Stuttgart, e a Beethovenhalle de Bonn.

As atividades musicais solo e de câmara o conduziram igualmente a Suíça, Alemanha, Áustria, Reino Unido, Estados Unidos, America Latina, China e Thailandia. No Brasil Bohórquez foi o solista convidado pela Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional Claudio Santoro, em Brasília e no Festival Música em Trancoso, na Bahia.

Colabora na música de câmara com o seu irmão Claudio Bohorquez, violoncelo, e o pianista Gustavo Beytelmann que formam um Trio.

Oscar Bohórquez toca um violino Giovanni Battista Guadagnini, a ‘Grande Dama’ de 1770, que antes pertencia a Günter Pichler, do Cuarteto Alban Berg, e um arco francês de Dominique Peccatte de 1845.

PROGRAMA

MAURICE RAVEL (1875-1937)
Suíte Le tombeau de Couperin
Prelúdio
Forlane
Minueto
Rigaudon

MOZART CAMARGO GUARNIERI (1907-1993)
Concerto para violino n o 2
Lento, Allegro energico
Triste
Allegro giocoso
Oscar Bohórquez, violino

IGOR STRAVINSKY (1882-1971)
Suíte Pulcinella
Sinfonia (Abertura)
Serenata
Scherzino, Allegro, Andantino
Tarantella
Tocata
Gavota com duas variações
Vivo
Minueto
Finale

12 de maio de 2019
Domingo – 10h30
Cine Arte UFF
Rua Miguel de Frias, 9 – Icaraí, Niterói
Ingressos: R$ 14 | R$ 7 (meia)