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UFF - Universidade Federal Fluminense
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Carta ao público:

Isso não é apenas uma exposição.

Exposição, segundo uma das definições de Antônio Houaiss, é um “conjunto de objetos similares, expostos para visitação pública (e de quadros)”. E com o passar do tempo, consolidou-se no entendimento público que uma exposição visual pressupõe basicamente: obras em paredes ou alocadas num espaço físico. Mas por quê toda essa explicação?

Bom, queiramos nos apresentar: somos três jovens estudantes do curso de Produção Cultural, que nos dedicamos durante três meses para preparar uma exposição virtual que homenagearia artistas visuais e plásticos brasileiros veteranos. Durante esse percurso, muitas modificações aconteceram, nos vimos tendo que enfrentar questões muito maiores do que esperávamos e encontrando empecilhos que não estavam nos nossos planos. O nosso produto final, então, se tornou algo bem diferente da ideia original. Ele é e não é uma exposição. É, porque você encontrará algumas obras por aqui, mas não só. Não é, porque se estiver esperando uma padronização tradicional, não é isso que vai encontrar.

Acabamos por criar uma exposição que mistura linguagens, que é multimidiática e não muito linear, assim como a obra de muitos artistas, inclusive as de alguns aqui homenageados, que não cabem em uma definição.

Portanto, se puder pensar um pouco a là Magritte: isso não é uma exposição, ao mesmo tempo que é; cremos que fará bom proveito. Te convidamos agora a entender um pouco mais sobre no que consiste a nossa (um tanto quanto ousada) empreitada.

Escolhemos o título “ArteVivências” pelo interesse de pesquisar sobre as relações entre arte e vida, arte e política e como esses e outros elementos do cotidiano atravessam os artistas e se imprimem nas telas e nos seus trabalhos, se juntando às possibilidades de diálogos que um encontro entre diferentes artistas proporcionaria. Para isso, selecionamos 5 artistas brasileiros, cada um pertencente a uma das 5 regiões do Brasil, que vivenciaram e foram afetados por períodos marcantes da história brasileira, bem como por elementos sociais que envolvem cor, etnia, regionalidade, gênero etc.

Nessa escolha, levamos em consideração dois pontos principais:

  1. Multiplicidade de perspectivas: prezamos por artistas veteranos, que estão no segmento há pelo menos 20 anos, com vivências distintas, que possuem características e identidades artísticas únicas e expressivas e têm seus trabalhos expostos no Brasil e mundo afora.
  2. Potência do encontro: ao abordar essas personalidades, você, o público, poderá absorver os pontos de convergência e divergência nessas histórias, tanto na linguagem artística quanto em suas trajetórias. Cada artista agrega ao diálogo suas criações e inquietações artísticas, potencializando esse encontro.

É possível visualizar, por exemplo, a proximidade entre a arte de Eustáquio Neves, Paulo Bruscky e Vera Chaves Barcellos, que se utilizam da manipulação e apropriação de imagens, arquivos fotográficos e textuais em seus trabalhos, ou notar a semelhança entre Gervane de Paula e Carmézia Emiliano numa pintura autodidata e que retrata a vivência do cotidiano, além de outras relações. Todos os artistas, de certa forma, fazem uma arte política, seja ela mais ou menos explícita, e deve-se estar atento a esse fator.

Por fim, uma consideração fundamental: O nome ArteVivências foi inspirado pelo termo “escrevivências”, criado pela escritora Conceição Evaristo. É importante ressaltar que as escrevivências de Conceição são geradas a partir de suas vivências, de suas memórias e de suas experiências como mulher negra. Ela escreve a partir do que vivenciou e do que viu e ouviu de seus iguais: Conceição não escreve só vivências individuais, mas coletivas, comuns a muitas pessoas negras. Aqui, em razão da natureza multi racial de nosso projeto, não seria possível manter essa face do conceito para com todos os artistas, então tomamos a liberdade de adaptá-lo e expandi-lo para uma compreensão de como seriam essas “artevivências” dos homenageados a partir de seus locais de fala particulares.

Obrigada pela leitura e boa visitação!

Ass., as produtoras/idealizadoras
Aline Filgueira, Laura Pessoa e Mariana Cordeiro.


 

Foto: Cortesia da Artista

Carmézia Emiliano

 

 

Carmézia Emiliano, 61 anos, de Normandia, Roraima, é artista plástica da arte naif e indígena macuxi, começou a pintar de maneira autodidata. Recebeu do artista Eliakin Rufino tela, pincéis e tinta e o incentivo para se tornar artista, a partir daí começou a pintar a cultura indígena e o que estava em seu entorno, buritizeiro, montanha, lavrada, igarapé e assim deu início a sua carreira em 1992. Com o tempo começou a pintar as histórias que vivia, suas obras passaram a registrar, preservar e perpetuar a memória e a cultura Macuxi e hoje é uma das artistas naif mais premiadas e importantes da arte brasileira.

 

 

Nas telas que eu pinto, tudo tem história” 

 

 

 

 

Título: “Timbó”, 2009
Fonte: Cortesia da artista

“Comecei a pintar sobre cultura indígena como a gente vivia, como eu vivia, porque eu me criei na maloca, na roça. Eu não copiei, nem olhei na revista, eu não fui pra escola, pra fazer desenho, pra fazer curso, nada. Aí eu me inspirei em pintar como a gente vivia, ralando mandioca, fazendo farinha, fazendo bebida…”.

Título: “A Lenda do Caracaranã”, 2016
Fonte: Cortesia da artista

 

 

Título: “Colhendo”
Fonte: Cortesia da artista

“Para não acabar a cultura indigena eu mesma valorizo o meu trabalho, minha cultura, cada vez mais eu pinto.”

Título: “25 anos fazendo arte”, 2017
Fonte: Cortesia da artista

“A gente passava o dia a dia fazendo essas coisas no interior, pintei em cada quadrinho o que as pessoas faziam. Foi muito importante pra mim porque eu retratei todas as histórias.”

 

 

 

 

“De vez em quando os jornalistas vêm pra fazer entrevista, para divulgar o meu trabalho, mas só isso que eles fazem. Mas pra apoiar mesmo, pra levar artista pra fazer exposição fora do Brasil ou daqui mesmo de Roraima, para ali de São Paulo e por Brasília, ninguém nunca me convidou, ninguém apoia, mas eu sou feliz mesmo assim, sendo artista e pintando minha cultura” 

 

 

Como homenagem a artista Carmézia Emiliano em nossa exposição, Jaider Esbell que é artista, escritor e produtor cultural e amigo de Carmézia, deu o seguinte depoimento:

 

Foto: Juan Esteves

Eustáquio Neves

 

 

José Eustáquio Neves de Paula, de 66 anos, é de Juatuba, Minas Gerais. Formado em técnico de química industrial, fotógrafo autodidata e artista visual, marca ao trazer em sua arte, principalmente, o resgate e a ressignificação de memórias e do pertencimento do povo negro na diáspora africana. Reconhecido pela sua fotografia de autor, composta por trabalho com arquivos, sobreposições de imagens, camadas de negativos, cópias e a manipulação de produtos químicos nas imagens.

 

 

 

“Eu quero levar pro outro essas minhas inquietações, os meus questionamentos, que é o questionamento de muitos, mas eu quero compartilhar o meu particular”

 

É fácil identificar na arte de Eustáquio manifestações íntimas e pessoais do artista, memórias que o atravessam como indivíduo, mas que também são coletivas e atravessam todo um grupo. Ele nos presenteia com a possibilidade de enxergar várias perspectivas de uma mesma memória e diversas narrativas numa só série.

Série Arturos, Minas Gerais, 1993-95
Fonte: Projeto Afro

 

 

 

 

“A partir do momento em que meu trabalho começou a ter uma certa visibilidade, eu tive um primeiro contato com a comunidade quilombola do Arturos e foi a partir dos Arturos que eu descobri que eu podia falar de mim.”

 

 

 

 

Série Cartas ao Mar, 2015
Fonte: Projeto Afro

 

 

 

 

“Porque tem aquela coisa né, antes disso um cara chegou da Europa, veio com a sua mala, seu passaporte, sua câmera, suas lembranças, muito diferente de nós negros, que vieram em uma imigração forçada, sem direito a nenhum pertence”

 

 

 

 

 

 

     

Série Retrato Falado, Minas Gerais, 2019

 

“Essa falta de registro de fotografia do negro que até então ali só era retratado de uma forma esteriotipada, um corpo usado para uma representação que não é a representação que nos interessa. Então acho que essa representação, de família, de ser humano, ela é muito rara nas famílias negras.”

 

Como homenagem ao artista Eustáquio Neves em nossa exposição, Glaucea Helena de Britto que é artista visual, arte educadora e pesquisadora, deu o seguinte depoimento:

 

Veja nossa conversa sobre arte, vida, memória e ressignificação, com Eustáquio Neves:

Foto: Rogério Florentino

Gervane de Paula

 

Gervane de Paula, 60 anos, nasceu e vive em Cuiabá, Mato Grosso. Artista plástico, teve seu primeiro contato com a arte aos 16 anos e desde então passou a visitar exposições, ler livros e revistas sobre arte. Suas grandes inspirações são o ambiente, as coisas que o cercam e sua vivência como homem negro. Seu trabalho é marcado pela influência da região e da identidade cuiabana e pelo caráter crítico, político e por vezes provocativo de suas obras, que variam em performances, instalações, murais e telas.

 

“Minha arte tem essa característica, de um artista que vive fora do grande centro, de costas para o litoral, (…) que se utiliza não só dos elementos como também de assuntos da cultura regional – mas sempre com um olhar pro nacional e o internacional.”
Trecho de entrevista dada ao Prêmio Pipa

 

 

A valorização da arte local é um assunto importante para o artista, que criou uma galeria de arte independente, a Boca de Arte, justamente para fomentar as diferentes formas de produção artística na região. Em sua exposição “Mundo Animal”, Gervane inclusive apresenta uma obra coletiva feita com a colaboração de artistas locais, contribuindo para a conexão entre os artistas e fortalecendo a criação da arte mato-grossense.

Título: “Arte aqui eu mato”, 2016
Fonte: Projeto Afro

Título: “2020”
Fonte: Rede Social do Artista

 

 

Título: “Campo Minado”
Fonte: Site do Artista

Título: “Artista negro, curadoras brancas”, 2018
Fonte: Prêmio Pipa

 

Como homenagem ao artista Gervane de Paula em nossa exposição, Fred Gustavos que é artista visual e fotógrafo, deu o seguinte depoimento:

 

Foto: Ashlley Melo (@ashlleymelo)

Paulo Bruscky

 

 

Paulo Roberto Barbosa Bruscky, de 72 anos, de Recife, Pernambuco, é um artista multimídia, escritor, arquivista e pesquisador. Atuando desde os anos 60, suas obras são de uma linguagem política, polêmica e que incita o debate, afinal, já no início da carreira atuou como artista militante durante o período da ditadura militar. Paulo trabalha com performance, intervenções urbanas, instalações, arte postal, fotografia, colagem, utilizando-se de carimbos, selos e xerox, e muitas outras manifestações artísticas.

 

“Nunca submeti meu trabalho a nada, nem à censura. Arte não foi feita para pedir permissão a ninguém. Só é arte se ela não se submeter a nada”
Trecho de entrevista dada à Revista Select 2017

 

 

O artista faz uso direto do seu próprio corpo e do seu território como composição da obra, ele propõe uma relação inseparável entre arte e vida. Em sua mais recente empreitada Paulo nos deixa a seguinte reflexão: “A Virulência da Arte é maior que a solidão do coronavírus.”

     

Performance: expressão alinhavada, 1978
Fonte: Cortesia do artista/Galeria Nara Roesler

 

 

O que é arte? Para que serve?, 1978
Fonte: Cortesia do artista/Galeria Nara Roesler

Fax performance, 1985
Fonte: Cortesia do artista/Galeria Nara Roesler

Como homenagem ao artista Paulo Bruscky em nossa exposição, Cristiana Tejo, pesquisadora, curadora e autora do livro “Paulo Bruscky – Arte em Todos os Sentidos” (2009), deu o seguinte depoimento:

 

Foto: Fabio Del Re

Vera Chaves Barcellos

 

Vera Chaves Barcellos, de 83 anos, nascida em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, é artista multimídia e professora. Formou-se em música no Instituto de Belas Artes de Porto Alegre, e em seguida cursou artes plásticas, por dois anos. Com seu olhar atravessado pela fotografia, reflete sobre os limites do que é a imagem, a representação, o falso, o real, a cópia. Desde então, seja em formato de instalação, vídeo, gravura ou fotografia, esses elementos são constantemente explorados em suas obras.

 

“Eu achei, num determinado momento, que eu estava me isolando do meu mundo ao redor, então isso me levou a uma autocrítica de ter um olhar mais objetivo, e esse olhar mais objetivo eu obtive através da fotografia. A fotografia pra mim foi uma observação do real; começou assim”
(Entrevista concedida ao programa “Em sintonia com: Vera Chaves Barcellos” da UFRGS)

 

Vera Chaves Barcellos, é, portanto, uma artista que encontra na – suposta – objetividade fotográfica matéria para o desenvolvimento da crítica, da provocação e da poética artística.

Testarte I, 1974
Fonte: Cortesia da Artista/Fundação Vera Chaves Barcellos

Jogo da Memória, 1975/2019
Fonte: Cortesia da Artista/Fundação Vera Chaves Barcellos

Memórias, 1978
Fonte: Cortesia da Artista/Fundação Vera Chaves Barcellos

Como homenagem a artista Vera Chaves Barcellos em nossa exposição, Margarita Kremer, arte-educadora e artista visual, deu o seguinte depoimento: 


Agradecimentos 

Gostaríamos de agradecer aos 5 artistas homenageados pela confiança em nos deixar homenageá-los, em especial a Carmézia e Eustáquio pela conversa e disponibilidade. A todos que deram um depoimento, Jaider, Glaucea, Fred, Cristina e Margarita em forma de homenagem a esses artistas, aos fotógrafos que nos disponibilizaram as fotos e aos sites que nos cederam as imagens. Ao Fabrício Santos pelo design incrível da nossa exposição e a equipe do Centro de Artes que nos auxiliou da melhor maneira nessa ação laboratorial.

Conheça as autoras do projeto

 

Aline Filgueira, de São Bernardo do Campo, SP. Tem 20 anos e é estudante do curso de Produção Cultural, cursando o 5º período. Já atuou como assistente de produção em eventos como Virada Cultural SP, Virada Sustentável SP (2019) e Rua de Lazer SP (2019 – 2020).

Laura Pessoa, de 20 anos, é cantora, professora de canto, estudante de Produção Cultural UFF e uma apaixonada por todos os tipos de arte. Atualmente cursa o 5º período da graduação de Produção Cultural e faz estágio na empresa Agente Se Fala Produções Artísticas.
Mariana Cordeiro, 20 anos, é produtora cultural em formação pela Universidade Federal Fluminense, atualmente no 5º período, pesquisadora em cultura e arte decolonial, já atuou como mediadora em congressos e eventos.

 

 

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