MÃE SÓ HÁ UMA

Entre as vidas de Christine “Lady Bird” (protagonista do filme que leva seu “nome”) e Moonee (de Projeto Flórida) há uma distância do tamanho da extensão de país continental que marca os EUA, a qual separa a Sacramento (Califórnia) em que vive a primeira da Orlando (Flórida) da segunda. “Lady Bird” está terminando a escola secundária e enfrenta os típicos dilemas concomitantes dos primeiros passos da sexualidade, misturados com a perspectiva (ou falta dela) de decidir o que fazer “para o resto da vida”. Já Moonee aparentemente nem vai à escola (embora estejamos em plenas férias de verão, não há nenhuma menção a essa instituição), e seus dilemas têm a cara dos seus seis anos de idade: como passar o tempo hoje e qual próxima travessura aprontar. O que as aproxima é algo que, ainda que esteja longe de ser exclusividade delas duas, encontra nesses dois filmes um retrato nada usual no cinema americano recente (ainda mais nesse cinema “oscarizável”): o papel determinante e profundamente complexo e multifacetado que suas mães têm na sua existência.

Lady Bird, o filme, segue na maior parte de sua narrativa uma fórmula bastante esperada, em mais um exemplo derivado do clássico “romance de formação”. Se alguma novidade será percebida pelo espectador, certamente ela não virá das desastradas relações amorosas juvenis (ainda que haja detalhes marcantes, como numa certa cena num banheiro público), nem das angústias e tropeços em sua rotina escolar (ainda que, aqui também, haja detalhes de interesse na caracterização da sua melhor amiga ou da freira diretora do colégio – e especialmente do “padre professor de teatro”). E a princípio nada errado aí, já que poucas coisas são mais universais e repetitivos do que os sentimentos de inadequação nos amores juvenis e nos anos de colégio. Mas, curiosamente, a surpresa vem daquela que talvez seja a única coisa mais universal do que as duas acima citadas: uma relação conflituosa com a mãe.

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No entanto, desde a sequência que introduz as duas personagens partilhando uma viagem de carro, fica claro que a relação dessa mãe e filha será tudo, menos banal. Muito disso se deve a uma química e trabalhos de atuação de enorme criatividade da parte de Saoirse Ronan (“Lady Bird”) e Laurie Metcalf (a mãe). No entanto, não é justo não dar o devido mérito ao olhar que emana da diretora e roteirista (e, não por acaso, atriz) Greta Gerwig, pois a carpintaria da dança do relacionamento entre as duas é em grande parte obra sua também. Se “Lady Bird” em alguns momentos na sua tentativa de se afirmar como “personalidade única” (algo, de resto, muito comum aos adolescentes) pode soar um tanto genérica (ainda que Ronan nunca deixe isso acontecer de verdade), a mãe que Metcalf interpreta é a alma do filme. Marion é umas das mais completas encarnações que o cinema recente conseguiu pintar dos dilemas maternos sobre como incentivar sem ser condescendente ou como educar sem ser cruel – principalmente porque na maior parte das vezes ela erra completamente o foco dos seus objetivos. É esse constante “errar” que dá carne aos conflitos do filme, pois nunca a personagem deixa de nos comover na sua enorme incapacidade de equilibrar as demandas emocionais que a filha deposita sobre ela com as difíceis condições práticas de seu cotidiano como mulher trabalhadora/provedora do lar.

Mas se Marion ainda tem pelo menos a presença de um pai para contrabalançar suas incompletudes e abraçar mãe e filha em momentos de dificuldades, o mesmo não passa nem perto de acontecer com a Halley de Projeto Flórida. De fato, o pai da sua filha de seis anos nunca é nem uma questão no filme, o que já indica muito do universo humano, social e econômico onde as personagens habitam. De fato, esse universo é o próprio retrato do fracasso do tal “sonho americano” (e certamente não é nenhum acaso ele ser encenado nas franjas do universo encantado da Disney World – evocado apenas pelos fogos de artifício na distância e pelos helicópteros partindo de hotéis próximos, onde Halley e Moonee tentam vender suas falsificações), um ecossistema delicado que parece sempre estar a um passo da autodestruição completa.

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No entanto, a grande originalidade do filme de Sean Baker (que já havia dirigido o também instigante Tangerine) é justamente a de, ao se colar eminentemente à experiência desse mundo pelos olhos de uma menina de seis anos, permitir que o que é um cotidiano duríssimo seja filtrado pela inocência (muito malandra) da sua protagonista. Desde os créditos sobre fundo roxo (recém pintado na parede caindo aos pedações) ao som de “Celebration”, tudo em Projeto Flórida é luminoso e colorido – reflexo com certeza da luz daquela região do país, mas também da forma como Moonee enfrenta o mundo como aventura. Porém, o sentimento da inevitabilidade da tragédia é forte desde o começo, e assistimos essa comédia com a certeza de que as risadas têm prazo de validade. No entanto, assim como no desfecho o filme recusa a entregar sua personagem ao destino duro sem possibilidade de luta e fabulação, tudo nas suas duas personagens principais indica uma recusa a ser somente o que se espera delas. Halley e Moonee não são apenas “guerreiras” naquele sentido meio bobo de que “não se entregam nunca”: acima de tudo, elas se recusam a capitular, e aceitar o papel de vítima ou de mocinhas arrependidas. O tempo todo estão dispostas a ir além, a não pedir desculpas, a serem desagradáveis e duras (inclusive, ou principalmente, com o espectador). É nesse desafio que o cineasta nos impõe (“vocês terão que amar as duas sejam elas como forem”) que está a grande lição de Projeto Flórida sobre o que pode ser realmente a alteridade e a compaixão. Pois gostar do que só nos agrada é muito fácil – e não é nesse terreno em que trafegam as mães. Certamente não as desses dois filmes, pelo menos.

Eduardo Valente
É ex-aluno do curso de cinema da UFF, tendo editado as revistas de cinema Contracampo e Cinética. Assíduo frequentador do Cine Arte UFF, escreve alguns textos de introdução à reflexão sobre alguns filmes de nossa programação por acreditar que a formação de plateia é das maiores missões que um cinema como esse pode cumprir.

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