JONAS E O CIRCO SEM LONA

Uma das diferenças do que se convencionou chamar de “documentário” para o jornalismo é que do primeiro não se exige “ouvir os dois lados”, nem exatamente a ideia de “fazer apuração”, que vem com o ideal (de resto inatingível, diga-se) de imparcialidade e objetividade que é a marca do segundo. De fato, se muitas vezes o repórter busca se esconder e sublimar a sua voz e o seu olhar como fatos constituintes do discurso das suas reportagens, uma parte considerável do que de melhor se fez e se faz no documentário (em particular na contemporaneidade) tem como vetor de força a explicitação de que a câmera não olha e vê tudo sem um ponto de vista. Que existem pessoas escolhendo enquadramentos e, acima de tudo, encadeamentos de pensamento e narrativa através do uso da montagem.

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Dentro desse panorama acima exposto, Jonas e o circo sem lona é um desses filmes em que a posição dos seus realizadores vai se explicitando cada vez mais ao longo da projeção, chegando a um dos finais mais pungentes ao lidar com essa distância (ou melhor, da falta dela) entre quem faz o filme e quem está representado na tela. O motivo principal para isso acontecer, como logo podemos entender, é o fato de que o filme acredita que seu personagem (o Jonas do título), para além de sua capacidade pessoal de nos cativar como espectadores de uma parte da sua vida, serve como um alter ego para todos aqueles que acreditam no poder regenerador e constitutivo da arte, e mais especificamente do fazer artístico. E, assim, de alguma maneira Jonas deixa de ser apenas mais um menino com uma história difícil e muitos sonhos numa periferia brasileira, para se transformar numa representação, quem sabe, dos próprios responsáveis pelo filme. Afinal fazer um filme, apesar de tudo e todos, é como sonhar um circo, apesar de tudo e de todos.

Dentro dessa perspectiva da quebra da ilusão de distanciamento entre quem faz o filme e quem aparece nele (e, logo, também da distância de quem assiste com essas duas instâncias), o momento-chave do filme é aquele em que uma personagem interpela os realizadores e explicita uma outra questão central no fazer documentário: em como o fato daquele filme estar sendo feito, por si só, altera a realidade que ele mesmo busca “documentar”. Em outro filme, menos frontal, esse momento seria descartado na edição, porque expõe o dilema fundamental e ético dos limites da atuação e da intervenção de quem faz sobre o que está se registrando. A diretora baiana Paula Gomes e sua equipe, porém, fazem questão de manter esse momento no filme, e dar um lugar bastante central na narrativa: depois que isso acontece, não é possível para o espectador continuar assistindo o filme sem pensar sobre a dimensão fundamental que é a forma como aquela realidade deixa de simplesmente “ser” para se explicitar como construção conjunta com a feitura do filme.

Não é por acaso, então, que Jonas e o circo sem lona terminou sendo o único representante brasileiro nas competições do principal festival de documentário do mundo, em Amsterdã, dois anos atrás: o gesto da diretora transforma o filme de (mais um) cativante retrato de um personagem cheio de empatia e natural charme numa discussão bastante profunda sobre os dilemas de levar uma equipe e posicionar uma câmera num lugar onde elas não costumam chegar.

Eduardo Valente

É ex-aluno do curso de cinema da UFF, tendo editado as revistas de cinema Contracampo e Cinética. Assíduo frequentador do Cine Arte UFF, escreve alguns textos de introdução à reflexão sobre alguns filmes de nossa programação por acreditar que a formação de plateia é das maiores missões que um cinema como esse pode cumprir.

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