BR 716

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Ao decidir começar o seu filme estando ele mesmo em cena ao lado do protagonista (Caio Blat), enquanto seus personagens perambulam por uma praia com o mar ao fundo questionando os estatutos um do outro (“você é autor ou personagem?”), Domingos Oliveira está deixando claro, na tela, que BR 716 é uma obra onde a fronteira entre o que existe ali de memória e de imaginação é muito tênue (embora, como logo admita, a memória da época seria no mínimo turva – “eu estava bêbado!”, afirma em off Blat, ou seria Domingos?). Nesse sentido, o filme pode ser visto quase como uma continuação do filme anterior de Domingos, Infância. Onde esse passava a limpo justamente a fase da vida que lhe dá título, BR 716 se centra em algumas poucas semanas na vida de Felipe (mesmo nome do personagem infantil que representava Domingos no filme anterior), aspirante a escritor que vive o que talvez possam ser seus últimos dias de inocência antes de precisar entregar o apartamento que o pai comprou para ele com muito esforço – e que ele já não consegue mais bancar, já que não trabalha em nada que gere algum tipo de renda, enquanto hospeda informalmente uma série de amigos e conhecidos que transformam o apartamento (localizado num prédio em Copacabana que dá nome ao filme – o “Barata Ribeiro, 716”) numa constante e enorme festa.
No entanto, o final da inocência que Domingos retrata em BR 716 não é apenas o de Felipe, como vai ficando claro aos poucos no filme: essas semanas que mencionamos, em que o filme se passa, são as que antecedem exatamente o Golpe de 64. Assim, aquele espaço de assumida alienação política (salvo pela eventual e quase folclórica visita de um amigo paulista militante) não apenas representa um oásis a salvo de qualquer preocupação com uma “vida regrada” para jovens aspirantes a artistas, mais ou menos talentosos, como também um microcosmos de uma determinada classe média brasileira que, um tanto quanto algumas representações da nobreza francesa pré-revolução, simplesmente ignoram tudo que se passa fora das paredes daquele lugar. Nesse sentido, a decisão do filme em “adentrar o passado” oficialmente com um plano em que as cores da rua Barata Ribeiro atual, com carros e ônibus contemporâneos passando nas ruas, dão lugar ao preto e branco dentro do prédio com a entrada nele do personagem de Caio Blat, simboliza tanto essa passagem de tempo como a entrada num “universo à parte” daquele mundo exterior. Além é claro, de servir para Domingos nos presentear com mais uma das suas típicas derrubadas da “quarta parede”, quebrando a ilusão da encenação ao admitir que o palco de teatro será armado naquele apartamento para reencenar, a partir do hoje, aqueles anos de memórias tão ébrias.
Essa admissão explícita que o filme faz da alienação política em que vivem seus personagens, no entanto, não é encenada por Domingos com o desejo de criticar nem expor os mesmos ao ridículo, até pelo contrário. Embora ele admita tratar-se de um comentário inevitável de ser feito quando visto de hoje, após tudo que aconteceu no período da Ditadura, os personagens em si não parecem ser culpados por ele da sua alienação, a qual é vivida com a paixão e a intensidade típicas de qualquer juventude. Nesse ponto, e não apenas nele, o filme realiza uma ponte muito clara com o primeiro longa realizado por Domingos exatamente 50 anos atrás: Todas as mulheres do mundo. Naquele filme, assim como é o caso de Felipe aqui, em pleno início do período ditatorial o personagem principal interpretado por Paulo José (que, não por acaso, aparece num plano rapidíssimo na última festa que fecha o filme – e o apartamento) só tinha olhos para as mulheres, e especialmente para a Maria Alice interpretada por Leila Diniz (ex-mulher de Domingos, que incorpora muito da vida deles ao filme). Visto por esse prisma, há um espelho curiosíssimo entre o filme daquele moleque de 30 anos, chamado de alienado por muitos de seus amigos do Cinema Novo por realizar as comédias românticas que fez então, e essa obra de um cineasta que acaba de completar 80 anos, e parece refletir criticamente, mas também com muito amor, sobre o cineasta que nascia naquele prédio de Copacabana, cercado por um país em polvorosa.
(Uma curiosidade: o roteiro que Felipe lê para os amigos numa das cenas mais divertidas do filme, “A Culpa”, foi realizado por Domingos em 1971. Seu quinto longa é um dos menos conhecidos de sua obra, inclusive por ser muito diferente do resto dela. Filme raro de ser visto, pede constante revisão por quem gosta da obra do diretor.)

Eduardo Valente

É ex-aluno do curso de cinema da UFF, tendo editado as revistas de cinema Contracampo e Cinética. Assíduo frequentador do Cine Arte UFF, escreve alguns textos de introdução à reflexão sobre alguns filmes de nossa programação por acreditar que a formação de plateia é das maiores missões que um cinema como esse pode cumprir.

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